28 de novembro de 2009

Gamer (2009)

Acabei de assistir o filme Gamer, com Gerard Butler, e estou pensando qual seria a melhor forma de descrevê-lo. Acho que “Perda de tempo” sintetiza satisfatoriamente a minha opinião.

O história é sobre um futuro próximo no qual as pessoas se divertem em jogos online no melhor estilo Second Life (que descanse em paz) com suas raves e personagens de aparência exdrúxula – os chamados avatares, ou  em simulações de combate armado como o Counter-Strike. Porém, com uma singela diferença: Os personagens dos jogos são pessoas de verdade controladas por outras pessoas. Em vez de realidade virtual, realidade real.

Run madafaca

Só um argumento idiota como esse já seria suficiente para que qualquer filme seja uma porcaria, mas o roteiro conseguiu o que parecia improvável – Piorar ainda mais a história e transformar o filme em uma bela porcaria. Por exemplo, os combatentes de Slayers (Esse é o nome do jogo de combate armado) que morrem às dezenas ao longo das fases do jogo são criminosos condenados à morte, recrutados para participarem em troca da promessa de liberdade caso consigam sobreviver. Extremamente original, não?

Essa justificativa foi utilizada muito antes, e de forma muito melhor, no excelente Running Man estrelado por Suasnêga. Inclusive todo aquele lance do protagonista ser inocente e a confissão do cara malvado ser transmitida ao vivo para todo mundo ver, foi copiado do mesmo jeito serviu de inspiração para Gamer.

Para não dizer que tudo no filme é uma merda completa, a música Sweet Dreams do Eurythmics é executada de forma maestral, principalmente com a identificação de sua letra com a trama. Também é sempre válida, embora batida e clichezenta, a crítica que se faz sobre o problema da imersão total no mundo virtual, que parece ser uma realidade cada vez mais próxima e impositiva. Por trás dos personagens magros, saudáveis e bonitos dos jogos, estavam o seus controladores, jogadores obesos mórbidos incapazes de se locomover sem o auxílio de uma cadeira de rodas (tirando o moleque que controlava o Kable, personagem do Butler, esse era um moleque magrinho e de olhos azuis).

Personagens reais dos jogos online do filme

Também houve uma crítica à mídia atual e a forma como transforma a miséria humana em espetáculo, sendo que, como se não bastassem as mazelas que existem naturalmente, em nome do Show se criam situações de ainda mais sofrimento e miséria, ao passo que quanto mais contato temos com toda essa realidade violenta e fria, mais insensíveis e distantes ficamos e, consequentemente, menos humanos. Mas isso o filme não teve interesse em aproveitar.

No frigir dos ovos, é um filme que, embora razoavelmente produzido, não tem como ser mais do que aparece na tela: Tiros e sangue pra todos os lados com uma justificativa duvidosa.

Ah, antes de ir embora, cabe comentar a cena perto do final do filme em que o cara malvado começa a dançar e cantar I’ve got you under my skin, acompanhado de dançarinos assassinos zumbis controlados pelo poder da mente. O comentário é: Diabéisso?

25 de novembro de 2009

Escreveu, não leu…

Passados os dias de Geyse, o que agita a blogosfera essa semana é a desventura de Emílio Moreno, condenado pela justiça a pagar uma indenização de R$ 16 mil devido a um comentário injurioso veiculado em seu blog. O bafafá todo é porque ele foi condenado por algo que outra pessoa escreveu.

O barraco

O caso foi mais ou menos o seguinte: No começo de 2008, Emílio publicou em seu Blog uma notícia sobre uma briga entre alunos do Colégio Santa Cecília, em Fortaleza. Entre os comentários do Blog, houve um anônimo que escreveu algumas ofensas à Diretora do colégio, que também é freira. A diretora/freira processou o blogueiro exigindo indenização por danos morais. O blogueiro não compareceu à última audiência e não justificou sua ausência, e terminou condenado a pagar a indenização.

Hein?

O caso repercutiu nas internets e agora com a condenação tomou um fôlego extra. Eu tenho a ligeira impressão que há uma certa euforia e, por que não dizer, satisfação, quando casos de "absurdos" ou "injustiças" ocorrem e dão aos blogueiros combustível para dois ou três posts (cof,cof.. heim?). Contudo, um fato que vejo ocorrer com muita frequência é a falta de profundidade com que esses casos são abordados. Li uns vinte posts sobre o caso Emílio e em oitenta por cento deles as opiniões e argumentos eram exatamente os mesmos, contando apenas com leves variações de estilo. Obviamente a maioria se pronunciou indignada com a decisão da justiça e tratou de retratar o condenado como um pobre injustiçado vítima da censura.

Mas será que realmente o blogueiro é vítima nessa história? Não sei. E é isso que quero ressaltar, que não é tão simples como parece tomar partido em favor de um lado sem conhecer direito o que se passou. Não é responsável e nem inteligente formar uma opinião conhecendo-se apenas metade do bafafá. Parece mais que a intenção desses posts, antes de alertar para uma possível injustiça e gritar páuer tu depípou, é fazer baderna e jogar merda no ventilador. Isto posto, deixa agora eu falar o que penso dos fatos relatados - com base no que li em diversos blogs e sites de noticias.

Sobre o Blogueiro e seu Blog

O fato é que houve um comentário publicado no Blog, cujo conteúdo atingia a moral de um indivíduo e, ainda por cima, publicado de forma anônima. Portanto esse comentário é duplamente anti-jurídico e, mais que isso, duplamente imoral. Embora o Blogueiro tenha escolhido não moderar seus comentários e permitir postagens anônimas, ele é responsável pelo conteúdo publicado em seu blog, principalmente porque ele é Senhor daquele espaço e nenhum comentário permanece sem sua autorização e, por consequência, seu aval.

Não digo que devam permanecer publicados apenas os comentários que concordem ou favoreçam a perspectiva do Blogueiro, mas sim aqueles que, contrários ou favoráveis, emitam a opinião de forma civilizada e, preferencialmente, identificada. Ou seja, a partir do momento em que uma pessoa permite os comentários em seu Blog, torna-se co-responsável por qualquer prejuízo que deles possam resultar.

Tenho nada com isso, não...

Além disso, parece que o tal Emílio é estudante de Jornalismo (aquela profissão que não precisa mais de diploma) e, como tal, deveria saber pelo menos o básico sobre Responsabilidade, Anonimato, Difamação, Calúnia e principalmente Ações Judiciais por Danos Morais. De acordo com o que foi veiculado pela imprensa é possível que ele tenha mantido o comentário mesmo após ser contatado pela Freira, sob alegação de defender a liberdade de expressão.

"Ainda segundo o blogueiro, que cursa Jornalismo numa faculdade particular, os advogados da freira, entraram em contato com ele e pediu para que o comentarista fosse identificado. Emílio Moreno disse ter de imediato retirado o comentário do post do ar. O advogado Helder Nascimento contestou. Disse que o blogueiro manteve a opinião do leitor, alegando o direito à liberdade de expressão, e também se negou a identificar o autor do comentário."
Fonte: estadao.com.br

Para mim, tenha ele retirado o comentário logo após a reclamação ou só depois de ser intimado pela justiça, a diferença é pouca. Ele deveria ter retirado o comentário assim que o tivesse lido e constatado seu conteúdo ilegal. E se ele não tiver capacidade para discernir que tipo de comentário é opinião e que tipo é injúria, não deve nem mesmo ter um blog, ou então ter dinheiro para pagar condenações por danos morais.

Sobre a Freira

Se fosse comigo o ocorrido, e visse na situação uma chance de arrecadar uns caraminguás para amortizar a prestação do meu financiamento habitacional, faria o mesmo que a freira: Ação na Justiça com gosto de gás. Escreveu, não leu, é analfabeto. Algumas pessoas questionaram pertinentemente sobre onde estariam nessa hora os princípios cristãos da Freira, principalmente um chamado Perdão. Mas isso é bobagem, tenho certeza que Jesus vai ficar mais feliz com o dízimo sobre o valor da indenização.

22 de novembro de 2009

Distrito 9 (2009)

Mais um filme de alienígenas. Mais do mesmo, porém com um mix de temperos que deixam a receita, de certa maneira, interessante – apesar da decepção inevitável que a mudança drástica de rumo causa ao espectador. Distrito 9 é a história de uma nave espacial gigante que encalhou no nosso planeta e não conseguiu mais partir e ir embora. Após três meses de espera, as autoridades humanas resolvem entrar na nave e ver o que que tá pegando. Dentro da nave encontram cerca de um milhão de alienígenas moribundos devido à desnutrição e ao confinamento. Fantástico começo, instigante e envolvente.

Porém, o desenvolvimento do filme não acompanha o mote inicial e acaba enveredando por um caminho de muita ação, pouco conteúdo, irreverência gratuita e diversos clichês. O que poderia se tornar uma grande história infelizmente perde a força e o rumo e termina como um filme pouco acima do medíocre. É um filme de estilo político: Promete mas não cumpre.

O que vale a pena

Pelo menos o começo do filme é sensacional e merece ser visto. A atmosfera criada em torno do acontecimento – Alienígenas que parecem terem vindo pra ficar – nos faz pensar “Uau! Tem coisa boa vindo por aí”. Não por acaso a nave calha de encalhar =) justamente sobre a cidade de Joanesburgo, capital a maior cidade da África do Sul. E após terem sido retirados da nave, a [digite aqui o coletivo de alienígena] extraterrena é alojada em um acampamento no meio da cidade, que é imediatamente cercada por arame farpado e homens armados.

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Está feito o paralelo. Os alienígenas são irremediavelmente vítimas de racismo e preconceito. É instaurado um novo Apartheid no país de Mandela, dessa vez uma segregação interplanetária. O formato de documentário da primeira parte do filme confere ainda mais impacto aos depoimentos dos sul-africanos, que se voltam contra os alienígenas; “Se ao menos eles fossem desse planeta, os trataríamos como iguais” diz um entrevistado.

O que derruba o filme

Infelizmente, após essa introdução que é dinamite pura, a esperada explosão não acontece. Algo dá muito errado no roteiro e na direção que transforma o filme em uma produção pasteurizada. Não é que esse novo rumo seja de todo ruim, mas a sensação de que algo se perdeu na história deixa um certo vazio para o espectador. Há uma queda muito grande de qualidade após a primeira parte, que não dá para nã ser notada e lamentada.

O Sr. tem 24 horas para abandonar o local. Pelo menos nessa segunda parte há uma certa similaridade com filmes como A Mosca, Alien, Robocop e Tropas Estelares, tanto na linguagem irreverente como na violência banalizada. Foram boas referências, pelo menos. Ponto para o filme. Porém, foram extremamente decepcionantes as soluções encontradas pelo roteiro para dar tensão e tentativa de humor ao filme, como a atitude idiota apresentar intimações aos alienígenas com ações de despejo (francamente…) e a circulação da notícia que o traidor humano que se juntou aos aliens teria sido flagrado tendo relações sexuais com um E.T. (aquela imagem deles atracados é ridícula).

No frigir dos ovos, Distrito nove é um filme razoável, cujo principal demérito é desperdiçar de forma tão leviana um argumento excelente e um começo impecável, porém, se formos capazes de relevar esse disparate, ele se torna um filme divertido de assistir, com bastante ação.

20 de novembro de 2009

Os três mendigos

Ainda na onda do filme Anticristo de Lars Von Trier, vale a pena viajar um pouco sobre o significado dos três mendigos: Sofrimento, Dor e Desespero que, quando reunidos, trazem a morte. Figura aqui mais uma antitese simbólica do cristianismo. Enquanto os três(?) Reis Magos da bíblia se reúnem para presenciar o nascimento do cristo, os três mendigos do filme se reúnem para presenciar a morte. Enquanto os reis da bíblia celebram o divino, os mendigos da natureza contemplam a morte.

Expulsos do Paraíso

Reza a lenda que Deus criou o universo, a terra, a natureza e o homem. Logo no primeiro capítulo do primeiro livro da bíblia, a criação é narrada em linguagem épica. E já nesse mesmo primeiro capítulo se vê claramente que a religião judaico-cristã (daqui em diante chamada apenas de Religião) coloca o homem acima da natureza, em uma posição de destaque. O homem não faz parte da natureza, essa existe com a finalidade de servir aos propósitos do homem. O homem é especial, meio-divino, pois além de ter sido feito à imagem e semelhança do próprio Deus, recebeu de Sua boca o sopro da vida, o pneuma, que é o espírito divino.

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Alocado no Jardim do Éden, o homem desfrutava de sua superioridade tendo tudo a seu serviço. Não havia sofrimento, dor, angústia ou morte. Era a existência ideal. Os animais e toda a natureza lhe era submissa.

Contudo, coube ao homem desobedecer a instrução divina e comer do fruto proibido e, por isso, ser expulso do paraíso. Como consequência da expulsão, a existência passou a ser acompanhada de sofrimento, dor, angústia e morte.

Dogmas

Assim, a Religião cria um de seus preceitos mais importantes e que serve de fundamento para toda a sua concepção Moral: O de que toda a dor, sofrimento e desespero que há no mundo não são simplesmente fatos naturais, mas sim consequência da influência maligna sobre o homem. Se o homem sofre, se o homem sente dor, se padece de doenças e angústia e se, por fim, o homem morre, não é porque essas são simplesmente as condições inexoráveis da existência, e sim porque o mal habita entre nós – por meio do pecado.

Em última instância, o homem é um pobre coitado, um bosta n’água incapaz de agir por sua própria razão ou vontade. Se faz o mal, é porque o diabo o tentou e o dominou, se faz o bem é porque foi inspirado por Deus. Lembra daqueles desenhos da Disney que o Pato Donald ficava em dúvida sobre o que fazer e na mesma hora apareciam um anjinho e um diabinho cochichando em seus ouvidos? É isso que a Religião prega.

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Veja como o círculo se fecha: Para a Religião o homem não é integrante da natureza, é um ser superior cuja existência é dotada de um significado divino. O homem é o tal, imagem e semelhança de Deus feito para viver eternamente e, assim sendo, não deveria estar sujeito a nada que cause sofrimento à existência, muito menos deveria estar sujeito ao fim da existência.

Os três mendigos

Não há indícios históricos ou geográficos de que tenha havido em algum momento o Jardim do Éden, e tudo o que leva os religiosos a acreditarem nas descrições bíblicas de uma existência livre de sofrimento é a fé. Contudo, a memória de todos os povos que já passaram pela terra relatam a existência do sofrimento como uma realidade pungente.

O fato é que somos invariavelmente submetidos às consequências de uma existência frágil e passageira, e essas consequências englobam a dor, o sofrimento, o desespero e finalmente a morte. Enquanto a Religião exclama “O maligno reina no mundo!” e, dessa forma, afirma que o sofrimento e a morte são consequências do pecado – criando consequentemente uma aversão moral a esses fatos - a razão diz “O caos reina no mundo!” e afirma que o sofrimento e a morte são consequências naturais da vida.

17 de novembro de 2009

Anticristo (2009)

Quem é Cristo?
Segundo o cristianismo, religião mais influente do mundo ocidental, Cristo é o Enviado, é o homem que vem ao mundo para trazer salvação: paz e felicidade - trazer vida. O Cristo foi nascido de uma virgem em uma concepção imaculada e na sua chegada foi recebido por três(?) Reis que trouxeram ouro, incenso e mirra.

Quem é Anticristo?
Anticristo é a antítese do Cristo, é tudo aquilo que nega a ideia da Cristo. E é exatamente esse o ponto do filme, apesar de não ser nada fácil enxergar esse ponto. O maior mérito do filme, entre vários, é oferecer uma interpretação de anticristo completamente nova para o cinema, totalmente divergente e infinitamente superior – na minha opinião – dos anticristos convencionais que são, em suma, meninos concebidos de uma relação sexual com o canhoto*.

  • *Canhoto, demo, cramulhão, belzebu, satã, encardido e tinhoso são alguns dos vários nomes que o diabo tem. Clique aqui para uma lista completa.

Prólogo

Se fosse para comentar apenas um ponto do filme, esse ponto seria sem duvida nenhuma o prólogo. Para expressar melhor o meu sentimento em relação à essa parte, não seria exagero usar os seguintes termos: “Puta que o pariu! O prólogo desse filme é a sequência cinematográfica mais foda e impactante que já vi em toda a minha vida. Simplesmente arrebatador. Assombrosamente belo.” Algo assim.

Toda a sequência é filmada em câmera super lenta, em um preto & Branco de alto contraste com um fundo musical que parece ter vindo de um sonho. É impossível não reagir diante das cenas exibidas. Logo nessa parte inicial somos completamente dominados pelo filme, tomados por uma perplexidade e curiosidade que se sustenta durante o desenrolar da exibição e nos mantém sobressaltados o tempo todo. A plasticidade alcançada fortalece demasiadamente a trama da história que vemos na tela.

Sexo Explícito & Simbologia

A carga sexual do filme é forte, e as cenas de sexo são exibidas de uma forma que choca o espectador comum, é sexo explícito na tela. O uso do sexo explícito certamente teve a sua razão de ser e não foi de forma alguma utilizado gratuitamente. Geralmente o cinema retrata as cenas sexuais de forma implícita, à meia luz e com um saxofone tocando um jazz, e assim o sexo é retratado como um meio, por exemplo, a celebração do amor. Infelizmente, parece que somente assim o sexo é aceito, quando revestido de algo que ultrapasse o ato e o diminua.

Quando vemos em Anticristo o ato sexual explicito, o sexo se torna uma finalidade em si mesmo. Nada de amor, nada de significados que trascendem o ato, o que temos ali é mera conjunção carnal, o sexo em sua concepção fisiológica, puramente .

Mostrado assim, o sexo se afasta de qualquer valor moral. Não é bonito ou feio, bom ou ruim, puro ou impuro. É apenas um ato natural. Todos os valores residem exclusivamente dentro de nós.

Anticristo é carregado de símbolos. Não é um filme literal. Os símbolos começam nos dois personagens, que não possuem nome. Apenas um homem e uma mulher. Como não têm nomes, eles representam muito mais que a individualidade de seus personagens, eles representam a humanidade em seus gêneros masculino e feminino. Mais uma vez a câmera super lenta é utilizada para reforçar o caráter simbólico das cenas que, embora haja movimento, mais parecem ser pinturas estáticas. O local onde se a maior parte da história, uma floresta chamada Éden - Que remete invariavelmente ao paraíso de onde a humanidade, simbolizados por Adão e Eva, foram expulsos.

A natureza, tal qual o sexo, é retratada de forma crua e, novamente, qualquer moralização das cenas com animais - Um cervo fêmea que pariu pela metade um filhote natimorto que não saiu completamente e fica pendurado em sua genitália, Um filhote de águia que cai do ninho coberto de formigas que o devoram e em seguida é capturado pela própria mãe, que arranca sua cabeça com o bico, e uma raposa que parece estar devorando sua placenta com o feto dentro - partem exclusivamente do espectador. Essas cenas simbolizam a realidade da natureza, natureza essa que não se divide em homens e animais. Tal qual a moral, essa separação existe apenas em nós.

Anticristo

Afinal, onde está a figura do anticristo? Provavelmente essa deve ser a pergunta mais frequente em relação ao filme. Não é nada fácil encontrarmos se nos mantivermos presos à idéia tradicional de anticristo, como a que citei anteriormente. A inovação, a genialidade e a superioridade dessa obra está justamente em apresentar uma idéia de anticristo completamente nova, muito mais real e próxima de nós.

O anticristo é apresentado, ou melhor, representado por símbolos que se opõem à simbologia cristã. Enquanto temos de um lado o nascimento sem sexo, do outro temos a morte durante o sexo. Enquanto o Cristo é um homem, o anticristo é a Mulher - o gênero feminino. Enquanto Cristo é recebido por três Reis e recebe ouro, incenso e mirra, o anticristo é recebido por três mendigos que trazem sofrimento, dor e desespero. Enquanto Cristo é divino, o anticristo é natural.

A natureza é a igreja de satã, diz a mulher em determinado momento. Aí está todo o segredo e a chave para desvendar a história (pela interpretação que me proponho a fazer, que não tem a pretensão de ser a única). O que se opõe ao divino não é o infernal, mas sim o natural - ou terreno. É a natureza, a nossa própria natureza que se opõe aos valores cristãos. Não precisamos que o diabo se oponha ao divino, nós mesmos fazemos isso naturalmente.

E por que o anticristo é representado pelo gênero feminino? Pode ser porque a mulher sempre foi o alvo e o objeto de toda a nossa natureza. Toda a nossa humanidade, toda a nossa essência se torna completa no corpo de uma mulher. A mulher representa o que há de mais natural, com seus ciclos menstruais, com suas variações de humor, com seus períodos de cio, com sua gestação e com sua capacidade de gerar vida. O homem se vê impotente diante de tanta intensidade que é impossível de ser controlada.

"Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura.."
I Coríntios 2.14

No frigir dos ovos, Anticristo é uma crítica - uma desconstrução do cristianismo que se apresenta como a convicção de que tudo que é natural e humano é essencialmente diabólico e maligno. Enquanto o Cristo nega e rejeita o que é humano e natural, o anticristo abraça e aceita a condição humana, pois essa é a nossa essência.