13 de novembro de 2009

Queremos Saber

Nesses últimos dias tenho escutado muito a Cássia Eller, mais especificamente o álbum Acústico MTV, e mais especificamente ainda a faixa nove.
A música se chama Queremos Saber, e é uma composição assombrosa de Gilberto Gil. Quando comecei a escutar o disco, essa música passou um pouco despercebida, a interpretação comedida e despretensiosa não chama muito a atenção. Mas quando parei pra escutar direito fiquei impressionado com a profundidade da letra. É filosofia pura sob forma de versos e acordes. Uma pérola.


Ao som suave de um violão e uma orquestração quase imperceptível o protagonista da música, o homem comum, faz diversos questionamentos acerca dos avanços tecnológicos e de que forma eles melhoram a situação da humanidade, ou melhor, questiona se, de fato, eles melhoram a nossa condição. Nos últimos anos foram tantas as mudanças de ordem prática, tantas invenções, tecnologias e avanços científicos que nos vemos em um admirável mundo novo. Mas, por outro lado, continuamos com os mesmos medos, preconceitos, limitações e mazelas que nos oprimem há milênios.

Queremos saber,
O que vão fazer
Com as novas invenções
Queremos notícia mais séria
Sobre a descoberta da antimatéria
e suas implicações
Na emancipação do homem
Das grandes populações
Homens pobres das cidades
Das estepes dos sertões

Emancipação do homem. A que o homem ainda está preso e precisa se libertar? O que será tão forte que nem mesmo todo o avanço científico é capaz de nos conceder alforria? Certamente não se trata de um atraso no conhecimento do mundo exterior e dos fenômenos físicos. O que ainda nos mantém aprisionados é a ignorância de nós mesmos. É a força maligna que, antes de tudo, nos impede de fazer questionamentos. É o medo de descobrir que nossas convicções estão erradas. Medo. E contra essa prisão toda a tecnologia do mundo é impotente.
Queremos saber,
Quando vamos ter
Raio laser mais barato
Queremos, de fato, um relato
Retrato mais sério do mistério da luz
Luz do disco voador
Pra iluminação do homem
Tão carente, sofredor
Tão perdido na distância
Da morada do senhor

Humanidade em trevas. Nesse trecho o homem questiona, esperançoso, se a luz do raio laser ou do disco voador é capaz de iluminar nossa existência, nossa consciência. Além de presos, estamos no escuro. Melhor, estamos presos pela escuridão da ignorância. Será que é a luz do raio laser ou a luz dos monitores de computador conseguirão iluminar nossa consciência? Que luz é essa, capaz de nos tornar seres iluminados por dentro? Novamente, é o conhecimento de nós mesmos. Cada um precisa buscar essa luz que somente se alcança por meio do pensamento filosófico, do pensamento crítico, do questionamento ao inquestionável. Essa é uma jornada solitária.
Queremos saber,
Queremos viver
Confiantes no futuro
Por isso se faz necessário prever
Qual o itinerário da ilusão
A ilusão do poder
Pois se foi permitido ao homem
Tantas coisas conhecer
É melhor que todos saibam
O que pode acontecer
Queremos saber, queremos saber
Queremos saber, todos queremos saber

A ilusão do poder. Onde vamos com toda essa tecnologia? Todo esse conhecimento - do mundo exterior, repito - nos deu poder sobre o mundo. Mais corretamente, nos deu a ilusão de poder, pois enquanto não formos senhores de nós mesmos não teremos poder nenhum. Enquanto estivermos nas trevas seremos servos da ignorância e do medo.


Gilberto Gil e Cássia Eller
Simplesmente genial a música. Simplesmente genial a interpretação. Que sensibilidade do Gilberto Gil para, em 1976, fazer essa composição que a cada ano e a cada nova invenção se torna mais atual. Quando à interpretação, nem é justo usar esse termo pois Cássia Eller não interpreta a música, ela vive a música.

Um comentário:

  1. Luiz Cesar Martins4 de abril de 2015 07:34

    Música sublime, desde da primeira audição com Cassinha adorei, procurei com Gil mas só encontrei ao vivo, essa música está em algum albúm de estúdio?

    ResponderExcluir

Fala aí: